Homologação de Fornecedores e o AT Kearney Chessboard

Homologação de fornecedores como base de evidências para aplicar o AT Kearney Chessboard com governança

Homologação de fornecedores e estratégias de negociação

Os compradores profissionais conhecem e utilizam no seu dia a dia o AT Kearney Chessboard, uma das mais sólidas referências em estratégias de negociação em compras. O modelo organiza a atuação do comprador em 4 estratégias de negociação, desdobradas em 16 alavancas e 64 métodos.

Não vou falar aqui de compras profissionais. Para isso, o mercado conta com excelentes especialistas. O meu foco é outro: o processo de homologação de fornecedores. Não como substituto do Chessboard, mas como o conjunto de evidências técnicas que permite executar, com segurança, as estratégias de negociação que o tabuleiro propõe.

Dizer que todos os fornecedores são iguais é desconhecer o risco.

É desconhecer o impacto.

É desconhecer a governança.

Nem todos os fornecedores apresentam o mesmo nível de risco

Cada categoria de compra possui um nível distinto de criticidade. E, por consequência, os fornecedores que a compõem também carregam níveis diferentes de risco. A homologação não pode, e não deve, tratar todos da mesma forma.

Homologação de fornecedores conforme a criticidade da categoria

Fornecedores de baixo risco, normalmente associados a categorias não críticas, podem ser homologados com base em documentação pública, informações cadastrais, dados reputacionais e verificações gerais de compliance, em resumo, qualquer big data de boa qualidade atende. Não há racional econômico nem técnico para ir além disso nesses casos.

O problema começa quando essa lógica simplificada é aplicada a fornecedores estratégicos, aqueles que impactam diretamente a continuidade operacional, o custo total, a reputação e a sustentabilidade do negócio. Nesses cenários, métodos básicos são insuficientes e perigosos. Aqui, a homologação precisa evoluir. Não adianta somente pedir questionários com boas intenções. O profissional deve saber o que está fazendo.

Tecnologia, velocidade e limites da homologação

A tecnologia teve um papel decisivo nesse avanço. O que antes exigia consultas manuais em dezenas de bases públicas, hoje é feito em segundos. Isso barateou e acelerou os métodos iniciais de homologação, permitindo que todos os fornecedores passem por um primeiro filtro técnico mínimo.

Mas atenção: a rapidez não substitui a profundidade.

Homologação aplicada aos quadrantes da Matriz de Kraljic

Quando falamos dos fornecedores posicionados no quadrante de alavancagem da Matriz de Kraljic, para os quais o AT Kearney Chessboard recomenda estratégias de mudança na natureza da demanda, a homologação precisa obrigatoriamente incorporar análise financeira profunda.

E aqui é importante ser claro:

Análise financeira não é “puxar um Serasa”.

Estamos falando de consulta a órgãos de proteção ao crédito, verificação de dívidas ativas, análise do balanço patrimonial e da DRE dos últimos dois exercícios, geração de indicadores financeiros e, principalmente, avaliação da capacidade real da empresa de sustentar a demanda contratada.

E quando o fornecedor tem menos de um ano de operação?

O risco não desaparece. Ele apenas muda de forma.

Se a empresa compradora decide avançar, deve exigir garantias. Seguros, cauções, fianças ou outros instrumentos capazes de transferir parte do risco. Isso não é desconfiança. É governança.

No quadrante de gargalo, onde o AT Kearney Chessboard recomenda elevar a competição entre fornecedores, a homologação exige outro tipo de olhar. Aqui, o risco não está apenas no financeiro, mas na dependência técnica.

É preciso entender o que torna esse fornecedor tão específico e difícil de substituir. Ele depende de autorizações regulatórias? Possui licenças exclusivas naquela atividade?

Nesses casos, a mitigação de risco passa por atestados de capacidade técnica válidos e específicos, certificados obrigatórios por lei e registros regulatórios vigentes. Um exemplo clássico é o Cadastro Técnico Federal do IBAMA, quando aplicável. Documento vencido, inexistente ou genérico não protege ninguém. Tem IA’s e big datas que falam que esta cadastro em dia é um diferencial ESG sendo que isso está totalmente errado. Se é obrigatório para a categoria e existe significa somente que cumpre. Se não é obrigatório, não aplica. Não podemos misturar conceitos e dar notas ESG por ter algo que nem todos precisam ter.

Por fim, os fornecedores posicionados no quadrante estratégico da Matriz de Kraljic, para os quais o AT Kearney Chessboard recomenda estratégias de busca de vantagem conjunta, exigem o nível máximo de rigor. Aqui, a homologação se aproxima de uma verdadeira due diligence, combinando análise financeira, compliance, ESG, auditorias em campo e avaliação da maturidade de gestão.

Não porque o fornecedor seja “suspeito”.

Mas porque o impacto de uma falha é alto demais para ser tratado com superficialidade.

A lógica é simples e implacável:

Quanto maior o impacto da categoria, maior deve ser o nível de evidência exigido.

Homologação como ferramenta de governança

A homologação de fornecedores não é um processo burocrático. É uma ferramenta de gestão de risco alinhada à estratégia de negociação em compras. Quando bem estruturada, protege a empresa compradora, qualifica a base fornecedora e fortalece relações de longo prazo.

Governança não nasce de atalhos.

Nasce de método, critério e coragem para tratar riscos de forma proporcional.

E nisso, o AT Kearney Chessboard continua sendo um excelente tabuleiro. Basta saber jogar a partida certa, no momento certo, com as peças corretas.

Perguntas Frequentes

A homologação de fornecedores é o processo de avaliação técnica que verifica se uma empresa está apta a fornecer, considerando riscos financeiros, técnicos, regulatórios, compliance, ESG e governança.
O AT Kearney Chessboard é uma ferramenta de estratégias de negociação em compras. Ele não orienta a homologação, mas evidencia que estratégias de negociação diferentes exigem níveis diferentes de evidência sobre os fornecedores, o que impacta diretamente a profundidade do processo de homologação.
Não. Cada categoria de compra possui um nível diferente de criticidade e impacto. Fornecedores de baixo risco podem ser homologados com métodos mais simples, enquanto fornecedores estratégicos exigem avaliações técnicas mais profundas.
Fornecedores estratégicos exigem um nível elevado de rigor, com análises financeiras profundas, avaliações de compliance, critérios ESG, auditorias em campo e, em muitos casos, processos semelhantes a uma due diligence.
Não. Análise financeira envolve consulta a órgãos de proteção ao crédito, verificação de dívidas ativas, análise de balanço patrimonial, DRE, geração de indicadores financeiros e avaliação da capacidade real do fornecedor de sustentar a demanda contratada.

Quando o fornecedor é novo, o risco não desaparece, apenas muda de forma. Nesses casos, é recomendável exigir garantias como seguros, cauções ou fianças para mitigar o risco da contratação.

A homologação é uma ferramenta central de gestão de risco. Quando alinhada à estratégia de negociação, ela protege a empresa compradora, qualifica a base fornecedora e fortalece relações comerciais sustentáveis.

Sobre o Autor

Rodolfo Sandoval Rodríguez, fundador e CEO da Sertras
Rodolfo Sandoval Rodríguez é fundador e CEO da Sertras, especialista em gestão de fornecedores, homologação, gestão de terceiros e análise de riscos. Atua há mais de uma década apoiando empresas compradoras na estruturação de processos de compras com foco em governança, compliance e ESG. É engenheiro de execução industrial, empreendedor e palestrante, com forte atuação na profissionalização das relações entre compradores e fornecedores, sempre com base em evidências técnicas, proporcionalidade de risco e tomada de decisão responsável.