Alucinação de IA: o risco invisível na Gestão de Fornecedores, Compliance e ESG

A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a fazer parte do dia a dia das empresas. Ela analisa balanços, cruza dados reputacionais, avalia riscos ESG e apoia decisões estratégicas.
O problema é que existe um risco silencioso pouco discutido fora do meio técnico: a alucinação da IA.

Alucinação ocorre quando um sistema de IA gera informações plausíveis, estruturadas e convincentes, mas incorretas ou incompletas, sem indicar incerteza. O texto parece profissional. O raciocínio parece lógico. A conclusão parece sólida. Mas o fundamento pode estar errado.

Estudos acadêmicos mostram que esse não é um efeito esporádico, mas um fenômeno recorrente em modelos de linguagem quando o contexto ou dados confiáveis são insuficientes para fundamentar respostas.

E em gestão de riscos, isso é perigoso.

O erro não é a falha. É a falsa segurança.

Diferente de um erro humano, que geralmente vem acompanhado de dúvida ou hesitação, a IA erra com convicção.
Esse comportamento cria um ambiente propício para decisões mal fundamentadas, especialmente quando a IA é usada como “oráculo” e não como ferramenta de apoio.

Onde o risco se materializa na prática

1) Análise de Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado do Exercício – DRE

Ao analisar balanços e demonstrações de resultado, a IA pode:

  • Inferir indicadores financeiros sem acesso ao contexto contábil completo

  • Supor normalidade em margens que, na realidade, são atípicas para o setor

  • Ignorar práticas de maquiagem contábil que exigem leitura humana experiente

O resultado?
Indicadores aparentemente sólidos que levam a decisões catastróficas, como aprovar fornecedores financeiramente frágeis ou rejeitar parceiros saudáveis.

2) Avaliação de riscos ESG

Grande parte dos modelos de IA:

  • Considera prioritariamente informações públicas

  • Dá peso excessivo à ausência de multas ou sanções oficiais

  • Usa bases limitadas a listas restritivas e rankings genéricos

Na prática, isso gera distorções graves.

Uma empresa pode receber alta pontuação ESG simplesmente porque bases públicas limitadas podem, em alguns casos, superestimar a performance ESG pela ausência de registros negativos, por exemplo:

  • Não possui multas no IBAMA

  • Não aparece em listas públicas de sanções

  • Não foi alvo de reportagens negativas

Isso ignora que ESG é muito mais do que ausência de penalidades.
Não avalia cultura organizacional, práticas trabalhistas reais, cadeia de fornecedores, gestão de terceiros ou riscos sociais indiretos.

Ou seja: silêncio público não é evidência de boa prática.

3) Compliance e integridade

No compliance, o risco assume outra forma:

  • Falsos positivos, quando a IA sinaliza risco onde não existe

  • Falsos negativos, quando valida como seguro algo que não é

Modelos de linguagem podem:

  • Interpretar erroneamente estruturas societárias complexas

  • Não identificar conflitos de interesse não documentados

  • Considerar ausência de dados como ausência de risco

A ausência de dados não significa ausência de risco, um princípio básico em gestão de riscos e due diligence. Em compliance, isso deve ser sempre considerado antes de qualquer validação automática.

Em compliance, errar para menos é tão grave quanto errar para mais.

O problema estrutural: IA não investiga, ela infere

A IA inferirá padrões. Ela não faz investigação crítica ou revisão conscienciosa de dados, como um auditor ou analista experiente faria.

Quando os dados são incompletos, desatualizados ou superficiais, a inferência se transforma em alucinação.

O impacto real na gestão de fornecedores

Na gestão de fornecedores, esse risco se multiplica:

  • Um fornecedor pode parecer financeiramente saudável

  • Pode aparentar baixo risco reputacional

  • Pode apresentar “boa nota ESG”

E ainda assim representar risco operacional, trabalhista, ambiental ou ético relevante.

Sem validação humana, o processo se torna tecnicamente elegante e operacionalmente frágil.

A margem de erro que não pode ser ignorada

Estimativas de falhas de factualidade em modelos de linguagem podem atingir dezenas de porcentagem de respostas imprecisas em determinados cenários, o que significa que decisões críticas não devem ser baseadas exclusivamente em IA.

Desde 2023 para análise de documentos técnicos nossa melhor marca de erro foi de 30% chegando até 40% em contextos como:

  • Risco

  • Compliance

  • ESG

  • Gestão de terceiros

Essa margem é simplesmente inaceitável.

Conclusão: tecnologia sem critério é risco amplificado

A inteligência artificial é uma aliada poderosa.
Mas, sozinha, ela não substitui método, governança e análise humana especializada.

O caminho seguro não é escolher entre IA ou pessoas.
É estruturar processos que combinem:

  • Tecnologia para escala

  • Dados para eficiência

  • Critério humano para decisão

Em gestão de fornecedores, compliance e ESG, errar bonito continua sendo errar.

Perguntas Frequentes

Alucinação é quando a IA gera respostas coerentes e bem estruturadas, mas baseadas em informações incorretas, incompletas ou inventadas, sem indicar incerteza. O problema não é apenas o erro, mas a falsa sensação de precisão.

Sim. Mesmo com acesso a balanços e DREs, a IA pode interpretar números fora de contexto, inferir padrões inexistentes ou ignorar particularidades setoriais, levando a conclusões financeiras equivocadas e decisões de alto risco.

Porque a maioria dos modelos considera majoritariamente informações públicas. A ausência de multas, sanções ou notícias negativas não significa boas práticas ESG. ESG envolve cultura, gestão de pessoas, cadeia de fornecedores e governança, elementos que raramente aparecem em bases públicas.

Não. A IA pode apoiar, acelerar e organizar informações, mas não substitui julgamento crítico. Em compliance, falsos positivos e falsos negativos são comuns quando a análise depende apenas de padrões estatísticos e dados incompletos.

O risco é validar fornecedores inadequados ou rejeitar parceiros estratégicos com base em análises aparentemente técnicas, mas conceitualmente frágeis. Sem validação humana, o processo se torna eficiente na forma e perigoso no conteúdo.

Em contextos críticos como risco, compliance e ESG, não. Enquanto as alucinações não forem controladas, estimativas apontam margens de erro entre 30% e 40% em análises exclusivamente automatizadas, o que é inaceitável para decisões estratégicas.

A forma segura é combinar tecnologia com método e critério humano. A IA deve apoiar a análise, nunca decidir sozinha. Processos estruturados, validação técnica e governança clara são indispensáveis para reduzir riscos reais.

Fontes acadêmicas e institucionais que tratam de “alucinação em IA”

  • Ji, Z. et al. (2023)Survey of Hallucination in Natural Language Generation
    Publicado na ACM Computing Surveys.
    É hoje uma das referências acadêmicas mais completas sobre o fenômeno de alucinação em modelos de linguagem.

  • Maynez, J. et al. (2020)On Faithfulness and Factuality in Abstractive Summarization
    Publicado na ACL – Association for Computational Linguistics.
    Analisa como modelos geram textos factualmente incorretos mesmo mantendo coerência linguística.

  • OpenAI (2023)GPT-4 Technical Report
    Documento técnico oficial que reconhece explicitamente o problema de hallucinations e suas limitações em contextos críticos.

Harvard Business Review (HBR)

  • Why AI Hallucinates (2023)

  • The Problem With Relying Too Much on AI (2024)

Sobre o Autor

Rodolfo Sandoval Rodríguez, fundador e CEO da Sertras
Rodolfo Sandoval Rodríguez é fundador e CEO da Sertras, especialista em gestão de fornecedores, homologação, gestão de terceiros e análise de riscos. Atua há mais de uma década apoiando empresas compradoras na estruturação de processos de compras com foco em governança, compliance e ESG. É engenheiro de execução industrial, empreendedor e palestrante, com forte atuação na profissionalização das relações entre compradores e fornecedores, sempre com base em evidências técnicas, proporcionalidade de risco e tomada de decisão responsável.